Cecília Fonseca
Cooperante – Canto Jovem, Natal, Rio Grande do Norte
Essas questões e essas palavras (sistematizar, sistematização) pairam no ar em muitas organizações, como o Canto Jovem. É uma preocupação crescente das organizações sistematizarem seus aprendizados, suas experiências para que sejam úteis para os demais (outras organizações, adolescentes, jovens, profissionais, etc.). Mas o que isso quer dizer? Sistematização é uma daquelas palavras complicadas, como planejamento estratégico, monitoramento e avaliação, que se tornaram cada vez mais importantes para o gerenciamento das organizações. Parece algo muito longe da nossa realidade, que só diz respeito aos “técnicos”.
Para desmistificar um pouco essa palavra e aprender o que é e como se faz, Ildete, Luciana e Cecília foram participar, em Março, de uma oficina sobre “sistematização de experiências”, promovida pela Escola de Formação Quilombo dos Palmares (EQUIP), de Recife.
Foram três dias bem relaxantes, no interior de Pernambuco, onde descobrimos que até sabíamos alguma coisa sobre sistematizar! É que a EQUIP usa, como método de formação, a educação popular. Assim, através de vários trabalhos em grupo, quase sem apresentações tecnológicas, fomos descobrindo que existem muitos significados da palavra “sistematizar”; aprendemos quais as condições que devemos reunir para proceder à sistematização e elaboramos roteiros fictícios de sistematização.
Sistematizar experiências é apenas um dos métodos para sistematizar. Esse método foi sendo criado e vivido na América Latina, pelos movimentos sociais, exatamente como reação às exigências técnicas, muitas vezes frias e rígidas, de financiadores e instituições públicas. Sistematizar experiências (e só experiências) quer dizer que quem participa ou participou, num dado momento, de um movimento / organização, de um projeto ou de uma atividade (oficina, curso, manifestação pública) relembra o que aconteceu, mas sobretudo, o que viveu e o que sentiu, junto com todos que participaram. Para isso, precisamos de tempo; de juntar materiais que tenham a ver com a experiência (por exemplo: fotos, relatórios, notícias na imprensa) e, sobretudo, decidir, para que queremos sistematizar.
Geralmente, esse trabalho serve para resumir o que aconteceu, o que se experimentou, em grandes conceitos, grandes áreas-chave e checar quais foram as dificuldades e os pontos positivos. Juntos, analisamos materiais, sentimentos, dúvidas, conquistas e enfiamos tudo isso num “sistema”, num quadro, num esquema lógico. Algo que alguém que não participou entenda num piscar de olhos. Isso é muito útil para socializar com outras pessoas, outras organizações, e no nosso caso, para chegar junto dos órgãos públicos e ter nossa voz, nossas idéias, nossas conquistas, as nossas posições claras e objetivas, ouvidas pelas instituições que decidem as políticas públicas.
Na maior parte dos casos, essas experiências são publicadas em forma de livro ou cartilha, de DVD ou colocadas a girar no mundo internáutico. No entanto, descobrimos que existem tantas outras formas de sistematizar experiências, muito bacanas e simples: uma canção, uma poesia, uma peça de teatro. Aliás, se pensarmos bem na nossa cultura, percebemos que todos nós, de um modo ou de outro, somos “sistematizadores de experiências”: quem nunca escreveu um textinho sobre os seus sentimentos, uma poesia? Se escutarmos com atenção as cifras das músicas, sejam aquelas “das antigas”, sobre o sertão ou um rap da Facção Real, ficamos sabendo tantas coisas sobre modos de viver e ver o mundo.
Assim, no Canto Jovem (apesar de ainda estarmos aprendendo como se faz), queremos sistematizar as experiências de quem por aqui passa ou passou, canta ou (en)cantou há cerca de 10 anos. Mais cedo ou mais tarde, serás chamada/o para essa importante missão!
Cecília Fonseca