Elisabeth Wilhelm

Cooperante – Programa Municipal de DST/AIDS de Lábrea, Amazonas

Durante o café da manhã lembro que ontem chegou o avião e espero que as camisinhas tenham chegado. Pego a bicicleta e vou na Secretaria de Saúde. Aqui não estão. Vou para a prefeitura – aqui também não. Depois para a linha aérea. Cada vez a mesma ronda, nunca podemos estar seguros de onde aparecerão. Não chegaram e me dá raiva. Só temos mais cinco caixas e a campanha começa no sábado. Volto à Secretaria de Saúde para ligar para a empresa de transporte, mas o telefone não está funcionando. Indo para meu escritório, começa a chover. Paro num orelhão para ligar. Não funciona e meu cartão fica dentro. Vou comprar outro cartão e tento de novo.

“Ligue daqui a meia hora. A pessoa responsável deu uma saída”. Vou para o escritório e encontro nosso ajudante. Peço que me ajude com a prestação de contas sobre preservativos e testes rápidos de HIV que era para entregar ontem. Não chegamos muito longe com a prestação de contas, porque chega H., uma travesti que quer copiar as fotos do evento de Miss Lábrea Gay. Também me pede mais preservativos, porque deu muitos para seus colegas. Como ela é agente de saúde e participou de nosso curso sobre saúde sexual e reprodutiva, proponho que leve uma caixa e o formulário de distribuição de preservativos e que atenda especificamente à população de homossexuais e travestis com quem ela tem um bom vínculo. H. se motiva pela idéia e pede também panfletos sobre DST/HIV/AIDS para distribuir. Depôs tenho uma reunião com a equipe de pesquisadores com a população de navegantes. Eles estão indo de barco em barco, fazendo um estudo sócio-demográfico da população e passando um questionário sobre saúde sexual e reprodutiva.

A pesquisa está indo bem e, de fato, ontem já veio uma pessoa ao posto de saúde encaminhada pelos pesquisadores. Combinamos que vou acompanhá-los um dia na semana seguinte. Estou com muita vontade de conhecer de perto o trabalho deles e também de passar um dia no rio. Após da reunião continuo com a burocracia. De tarde vou ao carpinteiro para pagar um suporte de madeira para uma camisinha gigante que queremos colocar na praia para a campanha. Aproveito que deixe de chover para fazer outra ligação desde o orelhão. Consigo localizar o responsável da entrega de preservativos. “Não deu para ir ao aeroporto, senhora, com certeza, enviamos no próximo avião”. De volta no escritório aparece uma aluna que quer fazer um trabalho sobre DST nas escolas. Sento com ela durante uma hora e meia explicando o essencial e proporcionando material de informação. Ela já assistiu palestras e leio os panfletos da coordenação, mas ficou com muitas dúvidas.

Os professores estão colaborando positivamente com a coordenação, desta forma convertendo os alunos em multiplicadores e por agora todos os alunos que fizeram seus trabalhos conosco tiraram boa nota. Quando a menina sai do escritório, quero passar os dados dos exames da sífilis para o computador, então começa a chover, esta vez dentro do escritório, que tem goteira. Não e a primeira vez. Estou preparada. Ponho a salvo o no-break e a impressora, cubro todo com plástico e levo os dados da sífilis para casa. Ligo o computador, escrevo duas líneas e o monitor torna preto. Ficamos sem luz. Acendo uma vela e um cigarro. Abro uma latinha de cerveja e decido submeter-me às circunstancias e ao ritmo amazônico. Amanhã é outro dia.

Elisabeth Wilhelm