Julia Pereira Dias

Cooperante, Conselho Nacional dos Seringueiros, Belém, Pará

D., uma mulher jovem de 25 anos da Reserva Extrativista Terra Grande Pracuúba de São Sebastião da Boa Vista, Ilha do Marajó, Estado do Pará, esperava o seu primeiro filho quando chegou na cidade uma semana antes do parto para esperar o bebê. Quando começou a dor, numa quarta-feira, foi ao hospital. O enfermeiro fez o toque e disse que era pro outro dia.

No outro dia (depois de muita dor), fizeram o toque de novo, mas falaram que não era ainda a hora. D. voltou para casa de parentes com muita dor. Voltou no hospital no mesmo dia, pois não agüentou mais a dor, mas fizeram ela esperar outro dia. Sexta-feira de manhã foi a primeira vez que ela foi atendida por um médico. D. perguntou se podia ter o bebê normal (a maioria das mulheres da família não pode ter parto normal); o médico disse que sim e que ia sair pela madrugada do sábado. Internou-a, mas não tinha leito no hospital. Portanto, D. foi forçada a ficar andando a noite toda. O médico falou para os enfermeiros ligar para ele caso algo grave acontecesse e saiu. D. andou a noite toda com dor insuportável. Ninguém ajudou. Comentário: “Sua hora vai chegar”.

Ela sozinha não conseguiu mais andar por tanta dor. Quando finalmente um enfermeiro entrou, ela disse que não dava mais conta de andar. A resposta: “Parto é assim mesmo”. Bateu a porta e foi embora. D. ficou agoniada, pensando que ia morrer sozinha lá mesmo. Depois o enfermeiro mandou uma acompanhante – filha de uma pessoa doente que não fazia parte do balcão nem da equipe do hospital fazer o toque. Amanheceu sábado e ela andando pelo hospital. 

Às cinco da manhã chegou uma outra mulher para ter bebê; os enfermeiros mandaram ela andar também após fazer o toque. Ela também estava desesperada, sentou no vaso sanitário, pediu ajuda. A mãe dela pediu ao enfermeiro ajuda, pois sua filha ia ter o neném. Porém, ele disse que não era para ter ainda, que faltava 1 cm. Finalmente foi lá (furioso) e o bebê já estava quase caindo no vaso. Daí levaram ela para ter o bebê.

D. continuou andando (sem comida desde quarta-feira; ela não recebeu nem comida nem água). Às 6:30h trocou o plantão, dois enfermeiros chegaram, inclusive um conhecido da família que ficou assustado com a situação de D. Ele mandou ela sentar na cama para ter o bebê e fazer força. Mas ela já estava fraca de dor, fome e desespero. Ele disse que ela não ia ter normal e pediu pra ligar pro médico. O outro enfermeiro disse que não tinha o número do médico.

Outro enfermeiro disse que o jeito era “cortar ela”. O conhecido se negou a fazer e teve que sair para outra chamada. Então, o outro enfermeiro cortou e mandou um outro rapaz (D. não sabe se ele era enfermeiro) fazer força na barriga dela. O rapaz então pulou encima da barriga dela. Nessa altura o ouvido de D. começou a sangrar pela pressão interna. A vista de D. escureceu; ela perdeu consciência. Com mais força e violência conseguiram tirar o bebê que neste momento (9:30) já estava morto. D. acredita que a força aplicada na barriga dela foi o que matou o bebê, pois ela mesma estava totalmente roxa na barriga e nos braços pela violência dos enfermeiros.

Quando acordou a família (irmão, irmã e marido) estava revoltada no hospital. O médico chegou e ficou assustado, disse que ninguém ligou para ele e que ele tinha operado ela se alguém tivesse avisado ele. D. ficou internada mais uma noite.

Informação adicional no caso D.

Um ano antes de ter o bebê, D. teve dois abscessos no seio. Quando teve o primeiro, trabalhava em Belém. Quando ficou muito ruim, ela falou para sua tia que a levou para uma amiga dela que era médica que disse que era um abscesso e a mandou para um hospital. Duas enfermeiras furaram sem anestesia. Saiu muito pus. Colocaram drenagem, voltou normal e cicatrizou.

Depois disso se criou outro abscesso. A tia a levou pelo plano de saúde a um médico, mas esse não a tratou bem, não explicou, foi muito mandão e desrespeitoso até a tia se revoltar. Mandou furar o segundo, mas deixou de explicar para D. que ia ter problema na amamentação por causa das cicatrizes e dos danos que os abscesso tinham feitos. Depois da segunda furação o bico ficou por dentro.

Depois de perder o bebê, então, D. sofreu muito pelo seio inchado de leite sem ele poder sair pelo bico. Ficou grandão e doeu muito. D. não foi mais ao médico nem hospital, mas tomou remédio caseiro. Sofreu por três meses. 

Vimos à importância, então, destas mulheres da floresta continuarem em busca de mecanismos para o controle social do SUS, com um projeto financiado pelo MS – SEGEP e, principalmente, da conscientização das mulheres sobre os seus direitos.

Julia Pereira Dias

Lição dental da saúde, CNS

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