Victoria Sykes
Cooperante – Programa Municipal de DST/Aids de Manicoré, Amazonas
Artigo 24 da convenção dos Direitos da Criança: Todas as crianças têm direito a saúde de boa qualidade, água limpa, comida nutritiva e um ambiente limpo para que se mantenham saudáveis. Isso é algo que todos os governos ratificaram (menos a Somália e os Estados Unidos). Eu trabalho para contribuir que estes direitos sejam uma realidade.
Eu achei que tinha visto comunidades isoladas na savana da Namíbia (onde trabalhava antes de vir para Brasil), mas hoje tive minha primeira visão da magnitude inconcebível e completamente absurda da Amazônia. Infindável, imensa, gigantesca: essas palavras não fazem jus a esse mundo saturado de água.
Embarquei em uma viagem de onze dias rumo às profundezas de Manicoré, o município onde estou trabalhando. Missão 1: distribuir pasta e escovas de dentes para crianças e dar aulas sobre como escovar os dentes. Missão 2: fazer contato com professores nas comunidades remotas e ver como as escolas isoladas estão funcionando. A equipe: três agentes de saúde, três professores, um comandante, um ajudante, um cozinheiro, Eluana (o barco) e eu.
Para alcançar o numero máximo de comunidades por dia, a equipe se dividiu em duas. Hoje acompanhei a segunda. Nós embarcamos em nosso barco a motor para chegar na comunidade de Biriba. Deixamos o rio principal, cor de café com leite, e seguimos um rio de água preta. Cada divisão do rio abria um novo espaço incompreensível. Eu sabia que nunca encontraria o caminho de volta sozinha. Nosso comandante navegava sem mapa. Esses rios não são córregos, são dois, três, quatro vezes mais largos do que o rio Tamis. Esses rios estão longe dias e dias do próprio Amazonas. À vista, árvores, água, botos brincalhões cor de rosa. Árvores, água e botos. Borboletas, pássaros, arvores, água.
Quando chegamos no destino, só pensei “por que aqui?”. Por que aqui e não na margem oposta? Além de tudo, têm as opções de oportunidade e escolha. Por que alguém mora neste lugar? Principalmente porque nasceu lá, tem família, raízes e meios de vida.
Esse é o mundo deles. Vinte seis famílias morando numa comunidade. Todo mundo participando em todos os aspectos da vida. Suas raízes são indígenas. Gerações e gerações de conhecimentos e habilidades têm feito deles mestres em sustentar os rios.
O presente, com todas as vantagens e desvantagens, chegou. É cárie dentária, um problema enorme aqui. Minha amiga dentista vê diariamente crianças de dois anos quem têm cáries tão graves que é preciso arrancar dentes primários. É tão triste. A indústria de açúcar tem um alcance largo e influente e a educação na prevenção de saúde não pode ficar atrás. Depois da aula de saúde, as criancinhas mostram timidamente como escovar os dentes para seus pais e para a comunidade e depois recebem seus kits dentais. Seus sorrisos explicam tudo.
Estou pensativa. Há pouco trabalho na área de saúde sexual e reprodutiva e prevenção de HIV. Como a Savana enorme da África, o interior do Amazonas não é fácil. Para tratar uma área tão grande é preciso planos e metodologias criativas. Mas as pessoas moram aqui e eles têm o direito de acessar informações que os deixarão saudáveis. Por isso estou aqui e isso é o que vou fazer pelos os próximos dois anos.
Victoria Sykes