O que significa ser cooperante internacional hoje
Cooperante do Serviço Internacional (IS) no município de Eirunepé/AM
A experiência da cooperação em outros paises enfatiza a nossa humanidade comum. A compreensão que você ganha com outros povos e culturas é profunda. É definitivamente uma forma socialmente responsável de viajar e aprender sobre a vida no exterior. Mas é também uma oportunidade de auto-reflexão, para saber como podemos agir individualmente sobre questões globais e como podemos causar um impacto positivo no mundo.
Espero revelar uma nova perspectiva de vida para vocês. A diversidade de vida por todo o mundo é realmente impressionante.
Eu nasci e cresci em Uganda. Por causa do meu amor por crianças vulneráveis, eu escolhi trabalhar, após a graduação no ano de 2000, na minha Uganda natal com o Fundo das Crianças Cristãs em Uganda. Depois, eu entrei na Organização de Apoio a AIDS. Trabalhar com eles ampliou minha perspectiva e eu vi o mundo de um ponto de vista diferente.
Trabalhar com pessoas internamente deslocadas em Uganda significa que eu vi as pessoas passarem por sofrimento como resultado de uma brutal insurgência de 20 anos pelos rebeldes do Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army). Milhares e milhares de cidadãos do norte de Uganda foram desalojados de suas casas para viver sob duras condições em campos de refugiados superlotados. Tenho lembranças vivas das pessoas com HIV que conheci naquele tempo.
Em 2006 fui para o “Fórum Internacional de Insegurança Alimentar e HIV" em Lusaka, no Zâmbia. Isto foi uma grande surpresa, também. Eu vi em primeira mão como a pobreza, doença e a falta de desenvolvimento social afetam os indivíduos e suas comunidades. Conscientizei-me de como os cooperantes de todos os cantos do mundo estão ajudando a aliviar a pobreza e a resolver problemas de HIV no Zâmbia e no mundo.
A conferência e a minha experiência de trabalhar com as ONGs em Uganda me fizeram decidir que passar um tempo como cooperante no exterior me capacitaria para ter conhecimentos e habilidades, fortaleceria a minha habilidade para defender os pobres e marginalizados e faria uma contribuição para os esforços de desenvolvimento em todo o mundo.
Minha decisão de me tornar cooperante no Brasil veio poucos dias depois de aprender sobre uma organização chamada Serviço Internacional (IS). Eu a achei ao navegar na Internet uma manhã ao procurar notícias e artigos. Após a leitura através do site, vi um anúncio para ser cooperante exatamente na minha área de trabalho: "DST / HIV / AIDS entre Crianças e Adolescentes '. Mandei meu formulário de inscrição na última hora possível, e menos de um dia mais tarde, recebi uma resposta. Ao receber um convite para participar de uma reunião de seleção de voluntários, eu sabia no meu coração que eu estava, de fato, indo para o Brasil.
Após a entrevista, recebi a boa notícia que eu tinha sido aceito pela organização parceira no Brasil.
Tornou-se rapidamente evidente que eu teria muito trabalho a fazer para tornar este sonho uma realidade. Eu comecei o processo demorado de obtenção de um visto da embaixada brasileira em Nairóbi, no Quênia. Além disso, eu precisava preparar minha família para estar em uma posição financeira sólida. E eu tinha que pedir demissão de meu emprego, TASO, que tinha feito uma grande contribuição para a minha carreira. Fazer as minhas malas para 24 meses de viagens internacionais criou uma espécie de caos controlado dentro do meu ser.
No dia 8 de março de 2008, com abraços marejados de minha esposa, eu sai de Johanesburgo, fiz uma conexão em São Paulo e desembarquei em Recife em 9 de março de 2008. Felizmente, desde o início dos preparativos para ir ao Brasil, eu tinha o amor incondicional e apoio genuíno da minha família e de grandes amigos.
Fui recebido por George, meu gerente, e levado para o hotel onde fiquei para o processo de uma semana de ‘orientação’ no país. Outros 3 voluntários da Inglaterra chegaram na noite seguinte. Conheci eles durante as reuniões de seleção em York e fiquei muito feliz por me juntar com eles novamente.
Durante a orientação no país, em Recife, a equipe de campo do Serviço Internacional explicou sobre o plano estratégico, a situação política no Brasil, quem as organizações parceiras eram, e os parceiros com quem eu estaria trabalhando.
Após a orientação, partimos para Manaus - a capital do Amazonas. Fomos levados para as famílias de acolhimento individual, onde me comprometi com a minha preparação com a organização parceira (o Programa Estadual de DST/AIDS do Estado de Amazonas), e eu também comecei a ter aulas de Português. Minha família me acolheu e me abraçou como um filho. Gostei muito de minha permanência com a família em Manaus, amei e fui amado.
Indo além da Esperança e do Medo
Esperança é o que nos impulsiona a agir. Me ensinaram a sonhar com um mundo melhor, assim como a dar o primeiro passo necessário para criarmos um. Nós criamos uma clara visão para o futuro que queremos, para depois definirmos uma estratégia, fazer planos, e começarmos a trabalhar.
Quero compartilhar com você meu coração, minhas experiências desde quando vim aqui para o Amazonas – as minhas convicções, pensamentos e sentimentos, agora que tive a oportunidade de ver a realidade do Amazonas. Após quase dois meses em Eirunepé, era hora de descobrir a realidade das condições de vida das comunidades ribeirinhas.
Sábado, 27 de junho de 2008: já fora do barco com cinco profissionais de saúde e um cozinheiro. Preparamos nossas malas com vacinas, medicamentos, água potável, gás, blocos de gelo e suprimentos de alimentos, o bastante para durar sete dias, quando os profissionais estarão prestando serviços médicos para as comunidades rurais no Rio Eirú. A unidade com a comunidade ribeirinha foi excepcionalmente linda, tão tropical, tão exuberante e verde. Eu realmente não sabia como o Amazonas parecia quando cheguei aqui até vê-lo com meus próprios olhos.
Em Eirunepé existem 166 comunidades ribeirinhas com base ao longo dos seguintes rios: Baixo Juruá, Alto Juruá, Rio Gregório, Rio Tarauacá, Rio Itucuma, Igarapé Preto e Rio Eirú. Os profissionais de saúde costumam viajar para a comunidade ribeirinha duas ou três vezes por ano para oferecer tratamento médico e vacinas. É comum ver as canoas se apressando com pessoas doentes para os centros de saúde ou hospitais– algumas têm casos de malária. Isso me lembra da situação na África.
Levamos 6 horas para chegar à primeira comunidade de Santo Antonio. Oh meu deus, linda! Estas famílias vivem em barracos muito básicos de madeira, com a área da cozinha em uma armação coberta de palha, onde o fogareiro está localizado. Quando cheguei com uma das famílias, eles me saudaram calorosamente. Após conversar por alguns minutos, ofereceram-me um copo de vinho de ‘açaí’. Não pude deixar de perder a oportunidade de participar de experiências culturais, eu simplesmente concordei. Uma experiência cultural que ganhei!
É realmente incrível ver o empenho e o amor que estes profissionais de saúde têm por toda a comunidade e lares que eles visitam! Eles nunca deixam passar uma família, e em algumas casas tiveram que dar longas palestras sobre o valor das vacinas antes dos pais permitirem que seus filhos fossem vacinados.
Nossas atividades diárias foram planejadas para que terminássemos cada dia numa comunidade estabelecida e que encontrássemos um lugar para atar nossas redes. Nós passamos nossa primeira noite em Santo Antonio numa sala de aula, a segunda noite em uma igreja. A terceira noite foi num barco e foi provado ser de pouco sucesso... entre violentos trovões, relâmpagos intermitentes, a chuva caindo sobre mim pelo lado do barco, e um buraco no mosquiteiro da minha rede que eu, acidentalmente causei ao esticar minhas pernas... Essa noite senti-me como um favo de mel para as abelhas. Os mosquitos me atacaram tão intensamente que me senti traumatizado. Impressionante!
Tarde da noite, nós fomos acordados por um dos grupos gritando bem alto. Devido à forte chuva e vento, o barco tinha saído da margem e chegado até o meio do rio... Sim, estes e outros eventos me mantiveram alerta e sem dormir na primeira noite neste meu barco-casa.
Lincoln após visitar a família de Raimundo, Rio Eirú, AmazonasMorar no rio era como um sonho se tornar realidade, ter a chance de ver as complexidades das condições em que os profissionais de saúde prestam serviços de saúde para a comunidade ribeirinha, e como é difícil para as pessoas viajarem para os centros da saúde nas cidades para conseguir serviços médicos – viajar numa canoa sob o sol escaldante, com medo de cobras e crocodilos, ser mordido por uma colônia de mosquitos.
Uma reunião com os anciãos e anciãs se revelou cheia de estórias interessantes. Raimundo não sai de sua comunidade há mais de 30 anos. Ele diz que ‘sua comunidade é enriquecida com todos os suprimentos, peixes, animais selvagens, variedades de frutas incluindo o delicioso “açaí”, mas é desprovida de serviços de educação e de saúde. ’ A razão para ele não visitar a cidade é que ele não tem uma casa ou um parente na cidade. Se ele tiver que viajar para a cidade, seja para ter serviços médicos ou por outras razões, então ele tem que dormir no barco por toda a duração da viagem até a cidade. Existem centenas de pessoas na mesma situação de Raimundo por causa das dificuldades, as pessoas da comunidade ribeirinha raramente terminam seus tratamentos – incluindo o tratamento de DST – já que não podem esperar por causa das condições estressantes de permanência na cidade.
Todos os dias, algo novo
Em uma das comunidades que visitamos vimos um barco se aproximando, e as pessoas do lugar disseram: ‘Ah, é o Frank. ’ Frank é um pastor e sua esposa Cristina é uma médica que trabalha na COMINS, uma organização Cristã Alemã que têm fornecido serviços de saúde e água potável para a comunidade indígena pelos últimos 15 anos. Quando me apresentei a ele e disse que eu era um cooperante no Serviço Internacional, ele disse que havia se lembrado de viajar por várias comunidades ribeirinhas com um dos cooperantes do Serviço Internacional alguns anos atrás. Ele estava trabalhando no controle da hanseníase. Gostei muito das conexões que fiz naquele dia e percebi que há muitas pessoas apaixonadas e dedicadas da mesma maneira que sou.
Uma marca indestrutível...
É uma alegria ver meus esforços serem reconhecidos pelo público. Eu fui realmente encorajado na reunião de Conselho Municipal de Saúde quando a nova secretária de Saúde disse: ‘Eu reconheço a presença do nosso cooperante. Espero que com a nova equipe, ele continue com o seu zeloso apoio. ’
Márcio é um enfermeiro que entrou no hospital em julho de 2009, e durante sua primeira semana nos tornamos amigos instantaneamente. Ele me disse recentemente, ‘eu estive em alguns municípios do Amazonas, mas nunca vi uma atividade de DST/HIV acontecer. Fiquei surpreso em ver tantas atividades acontecendo aqui em Eirunepé. Acho que é por causa da presença do cooperante.’ Então ele me disse, ‘you are a good guy’. Você é um cara bacana.
Lições de vida aprendidas...
Minha estadia aqui no Amazonas, Brasil – com o objetivo de obter uma compreensão mais profunda sobre a expressão cultural, a diversidade e a personalidade - é experimentar coisas que eu jamais poderia sequer conceber.
Ser cooperante abriu meus olhos para o que eu poderia oferecer, como eu poderia ser um homem genuíno. Descobri algo em mim que eu não percebia que eu era. A experiência superou todas as minhas expectativas. Sinto que eu entendo mais sobre como a outra metade do mundo sobrevive.
Desde o primeiro dia eu instantaneamente senti-me confortável com a minha organização parceira, e embora o meu português deixar muito a desejar, de alguma forma me comunico com todos e eles ganharam um brilho instantâneo em mim. Eles realmente valorizam os cooperantes, nós somos uma parte da equipe desde o primeiro dia.

Comunidade de Mourão: o cooperante Lincoln Ópio é A flexibilidade me colocou no caminho do sucesso. Cheguei na minha organização parceira com as expectativas do papel que eu tinha que fazer, mas quando chegou a hora de começar a fazer as coisas eu descobri que a descrição do trabalho era amplamente irrelevante. Não havia plano e nem objetivos. Eu percebi que eu estava aqui para ajudar a organizar o grupo e a estrutura que eles precisavam. Nenhum cooperante sabe exatamente o que será pedido dele ou dela no local de trabalho, mas, ser um bom cooperante é fazer o que é necessário. Ser flexível envolve adaptar-se ao que está ao seu redor, mesmo que seja radicalmente diferente do que você está acostumado. Eu tive a oportunidade de fazer as coisas que jamais teria feito em casa: fazer-me de bobo dançando em público, presenciar um festival folclórico. Eu agarrei a chance.
A paciência paga. Os cooperantes internacionais devem aprender a ser pacientes e ir devagar. Ao chegar ao local de seleção eu percebi que o passo da vida é mais devagar do que no meu país natal onde eu costumava projetar o trabalho com um prazo em conformidade. Eu passei a perceber que eu deveria centrar-me mais no processo do que no sucesso, e não tentar fazer muito.
Os cooperantes devem perceber que a parceria significativa é um longo e vagaroso processo. Evite forçar a agenda deles e deixe as coisas acontecerem no tempo deles.
Aqui em Eirunepé, a eletricidade é através de uma estação de geração termal com constantes racionamentos de energia. Quando a energia acaba, tudo para – incluindo a única conexão de telefone. Todas estas coisas podem atrasar um projeto, e a paciência é necessária.
Respeito e tolerância são essenciais. Você vai estar em situações em que você não vai entender imediatamente. Tenha cuidado para não julgar muito rapidamente. Esteja disposto a ver as coisas através dos olhos dos outros.
Ser cooperante ensinou-me a humildade e me deu uma oportunidade única de descobrir o quão pouco eu sei. Aprender a nova língua o mais rápido que puder, as regras são novas, a cultura é diferente. Percebi que, enquanto eu sou um profissional realizado e um líder comunitário em minha terra natal, nesse novo ambiente eu sou um novato. Eu fiz um monte de perguntas e cuidadosamente observei o que me cercava, a fim de realizar mesmo as tarefas mais básicas. Se eu tivesse que lutar com meus ocasionais sentimentos de impotência de teimosia e orgulho, isso teria levado à frustração e ao conflito.
Eu olhei para as pessoas com quem eu estou trabalhando e fiz uma simples auto-avaliação, perguntando-me algumas questões: o conhecimento e as habilidades que eles possuem que eu não tenho; experiências de vida que eles têm que são diferentes das minhas, os obstáculos que têm para vencer na vida, os desafios que enfrentamos diariamente que não tenho, alguns dos seus pontos fortes pessoais e profissionais; o que eu posso aprender com eles? Ser cooperante é uma capacitação de duas vias, aprender e ser transformado pelas pessoas que você pretende ajudar. Nada é previsível durante um trabalho como este.
Eu descobri que a comunicação entre diferentes culturas requer um grande senso de humor. Em vez de apontar o que a equipe não está fazendo de certo ou o que eles precisam fazer, eu sempre digo 'eu estou tendo um problema e não sei como resolvê-lo.’ Isso me mostrou que eu posso esperar bons resultados, porque as pessoas tendem a serem mais receptivas à informação quando ouvimos como um pedido e não uma exigência. Eu sempre afirmo que eles são parte da equipe. Eu deixo as pessoas saberem que elas são necessárias, e acredito na sua capacidade de conseguir resultados.
Ter tempo para ser cooperante no exterior mudou a forma de como vejo o mundo. Gostaria de convidar a todos para passar o tempo que poderem como cooperantes. As recompensas se multiplicam a cada semana, e você faz relacionamentos duradouros. A cooperação certamente lhe permite penetrar em baixo da superfície, e realmente faz você achar que tem um propósito. Não tenha medo da originalidade, do novo pensamento. Madre Teresa disse: "Nós não podemos fazer grandes coisas, mas podemos fazer pequenas coisas com grande amor."
Estou vivo e bem, aprendendo muito, crescendo bastantes e continuo sendo humilde diariamente. Estou muito feliz de poder informar a vocês que as coisas estão bem. A cada minuto do dia, eu penso que sou feliz. Esta foi uma grande oportunidade para mim, ver o coração do Amazonas, a vida no coração da selva, os ricos espíritos da população rural, a vida em outra realidade.
Lincoln OpioBiografia do Autor:
Lincoln Opio é um cooperante do Serviço Internacional onde está atualmente trabalhando no Estado do Amazonas. Ele trabalha no Programa Estadual de DST/AIDS de Amazonas no município de Eirunepé, onde está se dedicando ao planejamento e desenvolvimento de atividades ligadas à educação de saúde preventiva para crianças, jovens e adolescentes.
Antes disso, ele trabalhou no Fundo Cristão para Crianças em Uganda, trabalhando em questões que envolvem os direitos das crianças, pessoas deslocadas internamente, intervenção de subsistência, captação e gestão de projetos.
Ele é especialista em treinamento e prevenção contra HIV/AIDS e ganhou experiência no monitoramento e avaliação do tratamento de terapia anti-retroviral e programas de prevenção de HIV na Organização de Apoio contra a AIDS (TASO), uma das mais amplamente reconhecidas ONGs de serviço contra o HIV.