Vivam as Mulheres do Sertão!
Dia Internacional da Mulher, 8 de Março de 2010
Mulheres e Agroecologia
O Projeto “Construindo um Sertão Sustentável e Solidário”, em homenagem às mulheres agricultoras do semiárido brasileiro (e a todas as mulheres do mundo!), entende que é ESSENCIAL a participação das mulheres, equitativa e igualitariamente, em todos os processos de construção de uma sociedade mais justa. Acreditamos que um novo Sertão é possível, sim, mas só com a contribuição das mulheres. Nossa premissa é a de que a igualdade de gênero é condição sine-qua-non para a superação da pobreza e para o desenvolvimento sócio-econômico das famílias do semi-árido.
Parodiando Euclides da Cunha, as sertanejas são, antes de tudo, fortes!
Desde o final da década passada, tem se consolidado no Brasil o conceito de “agricultura familiar”, tendo essa categoria sobrepujado outras mais antigas ou clássicas, como a de “campesinato” (ainda bastante utilizada nos trabalhos acadêmicos e por alguns movimentos sociais, como a Via Campesina) e “trabalhador rural” (categoria fundante do movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, coordenado pela CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). O surgimento e crescimento do PRONAF – Programa Nacional da Agricultura Familiar, e a criação do MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário, fortaleceram e deram grande impulso, tanto ao desenvolvimento sócio-econômico desse meio de vida, como também aos estudos teóricos e às políticas públicas para voltadas para esse setor.
As definições são, de certa forma, ainda imprecisas, pois tentam abarcar formas muito diferentes de organização social e econômica, diferenças essas extraordinárias quando comparadas regionalmente, especialmente entre o Sul e o Norte do país. Além do mais, como abarcar com essa definição os\as assalariados\as rurais, os sem-terra que se refugiam nas periferias urbanas, e tantos outros meios de vida que dependem, majoritariamente, da agricultura? Ou elucidar a definição econômica de famílias extensas (todas vivendo e cultivando uma propriedade considerada única, p.ex) e/ou de práticas coletivistas de posse e uso da terra?
De qualquer forma, o conceito, ao se centrar na “família”, coloca em foco a importância de todos os membros do núcleo familiar, quebrando a tradicional hegemonia masculina nas práticas agrícolas. Agora, mulheres, jovens, crianças, anciães, são também atores vivos, importantes e reconhecidos nas unidades produtivas.
No Nordeste semi-árido, onde atua nosso projeto, isso é especialmente notável em relação às mulheres. Nos últimos 20 anos, tem crescido o protagonismo feminino na agricultura familiar. Diversos movimentos sociais feministas têm contribuído para disseminar uma nova consciência de cidadania e de direitos – e os direitos das mulheres têm sido ativamente contemplados: na luta contra a violência doméstica, na obtenção de documentos civis, no acesso a políticas públicas de promoção de seus meios de vida (crédito, assistência técnica) e na obtenção de serviços urbanos antes longínquos (energia elétrica, com o Programa Luz para Todos, permitindo que vejam programas televisivos, que conservem alimentos em geladeiras; educação de adultos em cursos noturnos; atendimento de saúde domiciliar, com o Programa de Saúde da Família; e muitos outros).
Queremos destacar, entre as mulheres agricultoras, a progressiva adoção da AGROECOLOGIA, não apenas como uma “técnica”, mas também como um novo paradigma de agricultura, transformando-as em “agricultoras experimentadoras”. A agroecologia desperta em suas novas adeptas uma nova consciência da Natureza, de se relacionar com ela, de potencializar seus cultivos sem a utilização de insumos artificiais (geralmente produtos químicos, de efeito tóxico tanto para quem os utiliza, como para quem consome as hortaliças e frutas finais). Além disso, abre a possibilidade de se relacionar diretamente com os mercados locais e regionais, de interagir diretamente com os consumidores (formando novos laços de aliança política e econômica, bem como de transformações culturais), de agregar valor à produção agrícola, através do beneficiamento da mesma.
Na transição para a agroecologia, transformam-se também, progressivamente, as próprias relações sociais, tanto no âmbito do núcleo familiar – onde as relações de gênero tendem a se tornar mais igualitárias – como no âmbito social, com a maior participação das mulheres nas diversas formas de associação que se lhes abrem – Sindicatos, Associações, Cooperativas, grupos de pastoral, grupos de mulheres, nas ONGs, nos projetos, nas articulações, redes, conselhos de políticas públicas, etc. Programas de universalização das cisternas, como o P1MC (Programa Um Milhão de Cisternas, implantado pela ASA - Articulação no Semi-Árido - com forte apoio do MDS - Ministério do Desenvolvimento Social), têm possibilitado uma economia substancial no tempo de trabalho antes destinado ao abastecimento de água (com a água de chuva captada e armazenada na cisterna), tempo esse que pode ser dedicado à família, à produção, ao estudo e ao lazer.
O impacto econômico dessas mudanças pode ser medido na melhoria da renda dessas famílias, na maior circulação de valores nas comunidades, no enfraquecimento do papel dos atravessadores. Faltam, certamente, pesquisas mais acuradas para comprovar essas observações, mas dezenas de investigadores, de várias universidades do país, já estão se debruçando sobre esse novo movimento social. O fato é que tem havido um ‘empoderamento’ progressivo das mulheres, e isso tem tido um impacto na melhoria da qualidade de vida de toda a família.
Tais evidências reafirmam a hipótese com a qual iniciamos essa matéria – de que a igualdade/equidade de gênero é condição necessária e suficiente para o real desenvolvimento da agricultura familiar e para o combate à pobreza, especialmente no semi-árido.
As formas de produção feminina no semi-árido são as mais diversas, contemplando, evidentemente, uma divisão de trabalho doméstica. A agroecologia está disseminando, contudo, a melhor utilização de espaços antes sub-aproveitados, especialmente o quintal doméstico. A figura do “quintal produtivo” (ou jardins alimentares) se aplica, especialmente, para aquelas famílias que não têm terra, ou que dispõe de pouca área cultivável, possibilitando que mulheres, especialmente, possam cultivá-los, sem se distanciarem de suas tarefas domésticas, como o cuidado de crianças pequenas e a preparação da refeições (a cozinha). O quintal produtivo traz a proposta da DIVERSIDADE, aproveitando os espaços para semear o maior número possível e viável de espécies. Essa diversidade permite associar a produção de temperos, de frutas, de hortaliças, de criação de aves e pequenos animais (galinhas, caprinos), numa área que se beneficia, em termos de fertilidade, dos restos de alimentos e das águas servidas. O quintal produtivo alavanca a segurança alimentar da família, propiciando uma maior diversidade de alimentos, durante todo o ano – e possibilitando, muitas vezes, a venda de excedentes nos mercados locais.
“As mulheres são determinantes para a definição de onde empregar o dinheiro obtido pela venda desses excedentes. Vários beneficiamentos foram efetuados nas propriedades, tanto para melhorar as situações de instalações para a produção, como para garantir às famílias melhores condições de vida e conforto” (Castello Branco, 2006).
A participação das mulheres nas feiras-livres é uma prática tradicional, no Nordeste, especialmente nas cidades de interior em que a feira é o acontecimento da semana. A feira representa o espaço de venda dos produtos das famílias, como também de produtos industrializados essenciais (roupas, calçados, objetos de cozinha, etc.) para esses pequenos produtores.
“É o espaço onde rural e urbano se articulam, onde amigos e conhecidos se reúnem, onde se sabe das novidades e das fofocas” (Castello Branco, 2006).
A essas feiras tradicionais, a agroecologia traz uma nova dimensão, e um novo “produto”: o consumidor(a) consciente. Pois a produção “limpa”, sem contaminação de agrotóxicos e de produtos químicos encontra eco na percepção dos consumidores urbanos de que tais produtos são indubitavelmente melhores, seja para o paladar (quem não sente imediatamente a diferença de mastigar uma alface orgânica de uma produzida em larga escala?), seja para a saúde, seja para o meio-ambiente. Esses novos consumidores podem inclusive serem convidados a visitar as propriedades desses novos agricultores, para ver como são produzidos os alimentos, e mesmo, “comprar na planta” – arrancando os produtos fresquíssimos para sua casa. Essas visitas criam relações de confiança, de fidelidade, e de compromisso, pois esses consumidores-aliados se tornam “amigos da feira”, e passam a divulgar a qualidade dessa produção na sociedade urbana mais ampla.
A feira agroecológica “produz”, também, uma nova “produtora rural”, a mulher que adota esse novo modelo de cultivo, e que desperta para as imensas possibilidades de transformar sua produção em mercadorias de outra ordem – através do beneficiamento, do processamento, da inovação, da preparação de pratos tradicionais, da criação de alimentos. Da mulher que aprende a vender, a contar para o comprador como foi que tal fruta ou verdura foi cultivado, a colocar, no produto, uma IDENTIDADE, uma história, uma causa. “As mulheres se colocam lado-a-lado com os homens e eles reconhecem que elas são essenciais para o sucesso da proposta e que desenvolvem algumas atividades mais eficientemente que eles. Por exemplo, muitas mulheres ficam responsáveis pelo registro das vendas e pelo controle dos recursos financeiros” (Castello Branco, 2006). Isso sem falar na relação inter pares, ou seja, com as outras mulheres que participam da feira, vizinhas ou companheiras do transporte da comunidade para a cidade ou não.
Essa nova mulher, agricultora, não só amplia sua própria consciência (desde o processo produtivo, como também nas relações sociais) como exerce um papel educativo, de educação ambiental, entre seus fregueses e admiradores. Destaca-se nisso, acima de tudo, o orgulho de ter uma profissão importante, de não ser mais uma trabalhadora anônima do sistema econômico semi-escravagistas, onde a produção mal dá para a subsistência, e a vida de pobreza afugenta os jovens. Essa criação da auto-estima é um dos aspectos mais comoventes dessa nova – e verdadeira – “Revolução Verde”, pois a assim chamada ‘revolução verde’ dos produtores de insumos químicos, da mecanização agrícola e, mais recentemente, dos transgênicos, não passou de uma INVOLUÇÃO descolorida, um passo atrás para a humanidade, na medida em que se tornou um artifício para os lucros do agronegócio e uma ameaça para nossa soberania alimentar.
As mulheres agroecologistas estão na linha-de-frente da luta por uma nova humanidade e por um planeta rejuvenescido e equilibrado. Unamo-nos a elas!
Omar Rocha
Coordenador Técnico do Projeto “Construindo um SERTÃO Sustentável e Solidário”, co-financiado pela União Européia por 3 anos (2010-12), parceria entre o Serviço Internacional Brasil, CECOR (Serra Talhada), CHAPADA (Araripina) e AQCC (Conceição das Crioulas).