Primeiros passos de um longo caminho
Os participantes aplaudem - a professora Lucanira e o professor Neofran terminam sua representação de como atuariam, se uma menina de 13 anos lhe confessasse que tem suspeita de estar grávida. O caso é bastante realista, essa é aproximadamente a idade de iniciação das relações sexuais em Lábrea, tanto na zona urbana com na rural. Os professores que mostraram durante esse curso de prevenção em saúde sexual e reprodutiva sua capacidade de ator trabalham com comunidades ribeirinhas. Eles passam oito meses distantes da cidade ensinando nas escolas rurais.
Para quem visita o Estado do Amazonas, a pequena cidade de Lábrea parece distante - três horas de vôo ou cinco dias de barco desde Manaus, a capital do Estado. Ademais, o território do município abarca uma superfície de 68.223 km² e mais de uma terceira parte dos habitantes de Lábrea, ou seja 14.966 pessoas, moram em comunidades ribeirinhas, muitas delas a uma distância de vários dias de viagem em barco desde Lábrea. Essas distâncias podem levar a uma visão enganada de que as DST estão igualmente longes de atingir a população rural. Embora uma deficiente vigilância epidemiológica impede fornecer dados fiáveis, DST como condiloma são referidos com freqüência por médicos e enfermeiros que viajam pela zona rural de Lábrea, e inclusive um dos casos de AIDS notificados em Manaus, indica como endereço: “Lábrea, zona rural.” Particularmente alta na zona rural é a incidência de hepatite B, e a infecção adicional com o vírus da hepatite delta, ambas de transmissão fundamentalmente sexual. Essa forma de hepatite fulminante é tão endêmica que chegou a ser denominada “febre negra de Lábrea”.
Para o ano 2009 a coordenação de DST/HIV/AIDS se propõe a difícil tarefa de iniciar uma ação de prevenção mais sistemática no meio rural. Até o momento, aproveitamos as viagens do hospital fluvial para fazer chegar preservativos e material informativo a aquela população tão distante, porém éramos conscientes de que a freqüência das viagens era insuficiente e não alcançava a totalidade da população.
Alem da distancia, no meio rural também outras obstáculos à educação em saúde sexual e reprodutiva se vem agravados, como são os tabus vinculados a crenças tradicionais e a desigualdade de gênero.
Esse curso participativo teve por objetivo proporcionar, além dos conhecimentos teóricos respeito à prevenção das DST e da gravidez não desejada, ferramentas práticas para trabalhar sobre esses temas com alunos, pais e outros membros da comunidade, e oferecer um espaço para debater suas dificuldades específicas. A oportunidade foi recebida com entusiasmo pelos 27 participantes do curso, pois eles são muito mais do que meros instrutores de letras, números e cultura geral. Os professores levam remédios, ajudam às famílias e aconselham os ribeirinhos em seus pequenos e grandes problemas. Vindos de fora, representam um mundo mais amplo e podem, em ocasiões, ganhar a confiança das pessoas precisamente pela sua relativa independência da vida na comunidade. Os jovens podem sentir-se mais a vontade de falar da sua vida íntima do que com familiares e visinhos. Por essa razão, e pela falta de acesso à informação da juventude rural, a totalidade dos participantes destacou a importância desse curso para seu trabalho. Com a partida dos professores para seus lugares de trabalho, a coordenação de DST/HIV/AIDS enviou, através da Secretaria Municipal de Educação, 2.300 historias de quadrinhos sobre DST/HIV/AIDS para as escolas rurais e 11 albums seriados sobre esse assunto para os coordenadores da educação no meio rural. Esses materiais foram financiados pelo projeto do Big Lottery Fund e vão ajudar aos professores a transmitir os conteúdos apreendidos para seus alunos.
O seguinte passo em nossa tarefa foi o treinamento de 37 Agentes Comunitários de Saúde da zona rural em saúde sexual e reprodutiva e a organização de um sistema de distribuição de preservativos para a zona rural através deles. Dessa forma, esperamos poder fornecer os insumos de prevenção a essa população carente e proporcionar um apoio aos professores nessa encruzilhada de promover um comportamento preventivo, integrando as ações da área da saúde e da educação.
Os insumos ainda estão longe de ser suficientes, e para mudar o comportamento das pessoas os profissionais têm um longo caminho por diante, porem o sucesso de essas primeiras iniciativas deu lugar ao otimismo de que a prevenção está começando a chegar às profundidades da selva amazônica.
Cooperante do IS – Elisabeth Wilhelm
Labrea,
Amazonas
Brasil